Maciel, Maria Isália Miranda2013-10-212013-10-2120041645-1937http://hdl.handle.net/10400.22/2409TraduçãoTenho milhões de leitores. “Embebido de sol, o pêssego amarelo é a fruta do Verão. Esconde, sob a pele fina e aveludada, uma polpa sumarenta que derrete na boca.” Sim, este texto é meu, nas embalagens de iogurte Yopla. Já vos estou a ouvir, e às vossas reticências. Milhões de leitores… Talvez pensem que a embalagem vai direitinha para o lixo antes que se leiam estas minhas palavras delicadas… Pois bem, não concordo. Primeiro, deixem-me dizer-lhes que o número de não leitores de livros é muito superior ao de não leitores de embalagens. Sabem, todos aqueles livros que se oferecem e fazem aumentar a tiragem dos best-sellers? Lêem os livros que vos oferecem? Quanto a mim, confesso que, normalmente, não. Tanta floresta arrancada para fabricar pacatos paralelepípedos rectangulares que servem de moeda de troca! Convidam-vos e oferecem um livro – qual senha de refeição. E agora, pensem bem no iogurte. Se esquecemos as palavras que enfeitam a embalagem, não é porque as não lemos – houve com certeza aqueles segundos de distracção em que nos escapámos para agarrar o iogurte entre o polegar e o mindinho, e decifrámos o rótulo. Mas a operação aconteceu quase inconscientemente. Prova que o texto escorregou pela garganta, qual pêssego amarelo, tom sobre tom. Esta harmonia da palavra com a coisa não acontece por acaso na sensação de frescura ensolarada, de fluidez leitosa. Desaparecer na sensação: eis uma bonita divisa poética...porTraduçãoPomar: Phillippe Delerm, «Panier de fruits», 1999other10.34630/polissema.vi4.3377